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Hoje eu acordei triste

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diegorubin
08 de Outubro de 2018, 06:10
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Hoje eu acordei triste, com uma angustia, uma dor no peito. Ontem foram as eleições, e depois de algumas semanas de tristezas, de grosserias e de ofensas sofridas, enfim vejo o Mefistófeles[1] do povo cristão brasileiro indo para o segundo turno com uma vantagem absurda.

Há quatro anos atrás, quando cientistas políticos discutindo a possibilidade disso acontecer, eu ria, achava um absurdo, não seria possível alguém com tão pouco conhecimento sobre o assunto, que em décadas nunca fez nada relevante alcançar tal posto. Eu me lembro exatamente do primeiro momento em que vi o candidato, foi em um talkshow brasileiro. As coisas que ele falava eram tão absurdas que, sem exagero, eu achei que era um personagem de comédia satirizando um politico. Os cientistas políticos erraram, meu riso hoje virou choro.

Como estudante de teologia, e como cristão tentando praticar o que Cristo nos ensinou, eu sempre me questionei como a igreja permitiu que alguns absurdos ocorressem. Hoje eu acordei com a seguinte imagem na cabeça pois nos últimos dias eu vi cristãos deixando o absurdo acontecer. E pior ainda, apoiando o absurdo.

Pesado não é mesmo? Talvez você diga que eu esteja exagerando, porém não consigo desassociar essa imagem do seguinte discurso.

Já disseram que estou tirando essas falas de seu contexto original, mas eu discordo. A ideia expressa nessas sentenças falam por si só.

Eu sempre me questionei como cristãos, com exceção de poucos indivíduos, apoiaram o nazismo. Eu sempre me questionei como cristãos, com exceção de poucos indivíduos, apoiaram o regime ditatorial brasileiro. E hoje estou vendo isso acontecer com meus próprios olhos. Sentindo na pele um medo de algo que está por vir. O cristianismo que eu aprendi lendo as páginas da bíblia e lendo obras de grandes autores não só me impedem de não aceitar esse tipo de discurso, não, o cristianismo que eu aprendi me obriga a levantar contra isso. O cristianismo que aprendi lendo a bíblia me ensina a desfazer de tudo o que o próprio Deus me deu, inclusive abandonar pessoas, me obriga a dar minha vida se preciso for.

Eu vejo pessoas abastadas, apoiando esse discurso porque o "messias" da atualidade pode me ajuda-las a irem mais vezes para os EUA ou para a Europa, pois as vezes que já estão indo não é o suficiente. Mas são pessoas que dirão que não foi por causa disso que apoiaram o candidato não, foi para salvar a "família tradicional brasileira". É, então me explica uma coisa, por favor. O candidato levou um trupe com ele para o senado, e para a câmara legislativa e um caso bizarro de São Paulo foi ter levado o Alexandre Frota. Esse cara está preocupado com o conceito cristão de família? Ele também diz "Deus acima de todos".

E nesse mesmo sentido, os cristãos não levaram para a câmara um deputado que a anos luta pela justiça social, trabalhando com o trabalho análogo a escravidão, o deputado Carlos Bezerra Jr.

Minha tarefa como cristão nesses próximos anos é orar pelos representantes da nação, para que haja um bom governo e arrependimento. Minha tarefa também é denunciar e lutar contra toda injustiça e vingança. Agora espero que os mesmos cristãos que colocaram essa turma lá, também tome parte nessa luta. E espero que os que colocaram esses caras lá por puro egoismo se lembrem que quem disse "tudo isso te darei se prostrado me adorar" foi o diabo e não Jesus.

Que Deus nos perdoe e tenha misericórdia da nação.

Notas

[1] Nome do demônio que fez o pacto com Fausto, da obra de Johann Wolfgang von Goethe